A Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), responsável pelo processo seletivo de ingresso na Universidade de São Paulo (USP), publica todos os anos uma relação de obras de leitura obrigatória para os vestibulandos. Na edição de 2027, a lista reúne títulos que abordam diferentes questões sociais e culturais e, pelo segundo ano consecutivo, é formada exclusivamente por livros escritos por mulheres.
Para Mauricio Soares da Silva Filho, professor de Português do Sistema Anglo de Ensino, o contato com a literatura exigida pela Fuvest deve começar ainda nos primeiros anos do Ensino Médio. Além de proporcionar o conhecimento necessário para a prova, o hábito da leitura contribui para a compreensão de textos e enunciados em outras disciplinas.
“Ler não deve ser visto como algo penoso ou apenas como uma obrigação escolar. Trata-se de um processo enriquecedor, com obras variadas e de qualidade, capazes de dialogar com diferentes perfis de leitores. A questão da mulher, em distintas épocas e visões de mundo, atravessa toda a lista e amplia a formação cultural dos estudantes”, afirma.
Representatividade na literatura
Mauricio Soares da Silva Filho também destaca que a escolha de um conjunto formado exclusivamente por autoras representa uma importante valorização de escritoras que, historicamente, receberam menos atenção nos currículos escolares e acadêmicos.
“Após décadas de silenciamento, estudar obras escritas por mulheres contribui para que o aluno compreenda a importância de ampliar vozes e perspectivas. Essa valorização impacta sua formação como leitor e como cidadão”, pontua.
Obras de leitura obrigatória da Fuvest 2027
Reunindo autoras de diferentes épocas e países de língua portuguesa, a lista da Fuvest 2027 contempla obras que dialogam com questões históricas, sociais, políticas e existenciais. Para auxiliar os estudantes na preparação, Mauricio Soares da Silva Filho destaca os principais temas e características de leitura presentes em cada um dos títulos exigidos. Confira!
1. Opúsculo Humanitário – Nísia Floresta
Publicado em 1853, “Opúsculo Humanitário” reúne 62 artigos, alguns deles anteriormente divulgados em periódicos como O Diário do Rio de Janeiro e O Liberal. Os textos abordam temas como a opressão feminina e a importância da educação para as mulheres. Ao retratar a realidade da época, a autora critica as limitadas perspectivas oferecidas ao público feminino, cuja formação era frequentemente direcionada apenas às atividades domésticas. Ao longo da obra, Nísia Floresta apresenta um panorama da atuação das mulheres em diferentes culturas e períodos históricos, defendendo a educação como instrumento de cidadania e transformação social.
2. Nebulosas – Narcisa Amália

Publicado em 1872, “Nebulosas” é um livro de poemas representativo do Romantismo brasileiro. Na obra, Narcisa Amália dialoga com importantes autores do período, como Castro Alves. Entre os diversos temas abordados, destacam-se a melancolia e a poesia afetiva, marcas do estilo da autora. Os poemas também apresentam características das três gerações românticas, reunindo elementos como nacionalismo, subjetividade e críticas sociais.
Segundo Mauricio Soares da Silva Filho, a linguagem utilizada pode representar um desafio para os vestibulandos. “O livro apresenta uma linguagem bastante erudita e versos que exigem atenção do leitor, o que pode tornar a leitura mais desafiadora para alguns estudantes”, explica.
3. Memórias de Martha – Júlia Lopes de Almeida

Escrito por Júlia Lopes de Almeida, uma das romancistas mais importantes e lidas da Primeira República, “Memórias de Martha” foi publicado em 1899. A obra narra a trajetória de Martha, jovem que vê a mãe assumir sozinha a responsabilidade financeira da família após a morte injusta do pai, acusado de roubo. Ao se mudar para um cortiço no Rio de Janeiro, ela passa a conviver com problemas sociais que permanecem atuais, como a pobreza e a desigualdade.
A educação surge como elemento central em sua trajetória, tornando-se uma ferramenta de ascensão e transformação. Ao longo da narrativa, a autora evidencia como as desigualdades sociais e os privilégios influenciam o destino dos indivíduos. “Martha narra sua história aos 32 anos, revisitando a própria infância e refletindo sobre sua relação com a mãe, seu processo de autoconhecimento e as estratégias de sobrevivência em uma sociedade marcada pelo machismo”, analisa o professor.
4. Caminho de Pedras – Rachel de Queiroz

Publicado em 1937, “Caminho de Pedras” retrata a formação do Partido Comunista no Ceará em um período de intensa mobilização política no Brasil. “É uma narrativa marcada por uma forte dimensão social, que aborda as demandas dos trabalhadores e a luta por melhores condições de vida e trabalho. Ao mesmo tempo, a trama também desenvolve uma história de amor permeada por questões políticas”, comenta Mauricio Soares da Silva Filho.
A autora articula o contexto político por meio do triângulo amoroso entre Roberto, Noemi e João Jacques. A participação de Noemi nas atividades políticas rompe com os padrões sociais da época, que restringiam o papel feminino ao casamento e à maternidade.
5. A Paixão Segundo G.H. – Clarice Lispector

Publicado em 1964, “A Paixão Segundo G.H.” acompanha a experiência transformadora vivida por uma mulher ao se deparar com uma barata no quarto de sua empregada doméstica. O encontro desencadeia uma profunda reflexão existencial e conduz a personagem a um intenso processo de autoconhecimento.
“É um livro intimista e reflexivo, marcado pelo fluxo de consciência. Trata-se de uma obra impactante, que proporciona uma experiência de leitura desafiadora e fundamental para a formação do leitor”, destaca Mauricio Soares da Silva Filho.
A obra também suscita reflexões sobre questões raciais e sociais, especialmente ao evidenciar a invisibilidade da empregada doméstica na percepção da protagonista.
6. Geografia – Sophia de Mello Breyner Andresen

Em “Geografia”, a poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen reúne poemas que exploram diferentes espaços físicos e simbólicos, reorganizando a percepção do lugar e da relação do ser humano com o mundo.
Com forte musicalidade e frequentes referências à natureza, a autora constrói uma poesia lírica marcada pela contemplação e pela reflexão. O professor destaca que um dos poemas aborda Brasília, criando um interessante diálogo entre a autora portuguesa e a realidade brasileira por meio da arquitetura e da construção da cidade.
7. Balada de Amor ao Vento – Paulina Chiziane

Considerada uma das principais vozes da literatura moçambicana, Paulina Chiziane foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique e tornou-se a primeira mulher negra a receber o Prêmio Camões. Em “Balada de Amor ao Vento”, a narradora Sarnau revisita suas memórias para contar ao leitor sobre a juventude, o primeiro amor e as desilusões afetivas que marcaram sua trajetória.
“A obra amplia a formação cultural do estudante ao apresentar aspectos da sociedade moçambicana e discutir temas como a poligamia, prática ainda presente em algumas regiões do país. Além disso, traz reflexões sobre a relação linguística e cultural entre Moçambique e Portugal”, explica Mauricio Soares da Silva Filho.
8. Canção para Ninar Menino Grande – Conceição Evaristo

Publicado em 2018, o romance apresenta a história de Fio Jasmin, homem negro constantemente cercado por mulheres, apesar de ser casado. Ao longo da narrativa, a autora mostra como experiências traumáticas da infância influenciaram sua construção afetiva e seus relacionamentos na vida adulta.
Para o professor, a obra propõe uma reflexão sobre a masculinidade negra sob a perspectiva de uma autora e narradora mulheres. “O livro questiona estereótipos associados à virilidade masculina e oferece uma leitura crítica sobre a construção social da identidade masculina negra”, observa.
9. A Visão das Plantas – Djaimilia Pereira de Almeida

A escritora luso-angolana Djaimilia Pereira de Almeida apresenta a história de Celestino, ex-traficante de escravos que retorna a Portugal e passa a viver isolado, marcado pela rejeição social e pelo peso de seu passado. Enquanto cultiva flores e tenta reconstruir a própria vida, o personagem é constantemente confrontado com as consequências de seus atos.
Segundo Mauricio Soares da Silva Filho, a narrativa funciona como uma alegoria do Império Português e promove reflexões sobre memória, responsabilidade histórica e reparação. “É uma leitura exigente, que demanda do leitor repertório histórico para compreender plenamente as camadas simbólicas presentes na obra”, conclui.
Por Laura Ragazzi



















