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Por que uma usina eólica no RS fez o Uruguai voltar a questionar a fronteira com o Brasil

Por que uma usina eólica no RS fez o Uruguai voltar a questionar a fronteira com o Brasil é a pergunta que voltou ao centro do debate diplomático sul-americano após…
Usina eólica no RS

Por que uma usina eólica no RS fez o Uruguai voltar a questionar a fronteira com o Brasil é a pergunta que voltou ao centro do debate diplomático sul-americano após a entrada em operação de um dos maiores parques eólicos do país.

O que deveria simbolizar avanço na transição energética acabou ressuscitando uma controvérsia histórica que estava fora do radar desde 1934, envolvendo soberania, tratados internacionais e uma área estratégica na fronteira sul do Rio Grande do Sul.

A instalação de turbinas de última geração em uma região conhecida como Rincão de Artigas, na divisa entre Brasil e Uruguai, levou o governo uruguaio a formalizar novamente um pedido de reabertura das negociações fronteiriças — movimento que surpreendeu autoridades brasileiras e reacendeu um impasse diplomático com quase 100 anos.

Usina eólica bilionária reacende disputa histórica

A entrada em operação do Parque Eólico Coxilha Negra, localizado no município de Santana do Livramento, no sul do Rio Grande do Sul, foi o estopim para a retomada da controvérsia.

O empreendimento, que ultrapassa R$ 2 bilhões em investimentos, é considerado estratégico para o setor elétrico brasileiro e integra o esforço nacional de ampliação da matriz energética renovável.

No entanto, parte da área ocupada pelo parque está dentro de uma região de aproximadamente 22 mil hectares (237 km²) que o Uruguai considera objeto de contestação histórica.

Para Montevidéu, a instalação de um projeto dessa magnitude em território questionado reforça a necessidade de rediscutir os limites fronteiriços.

O que é o Rincão de Artigas e por que ele é disputado

O Rincão de Artigas é uma faixa territorial situada entre Santana do Livramento (Brasil) e Rivera (Uruguai).

Oficialmente, o Brasil considera a área plenamente integrada ao Rio Grande do Sul desde o século XIX, com base no Tratado de 1851, que estabeleceu os limites entre os dois países.

Já o Uruguai sustenta que houve um erro técnico na interpretação dos marcos naturais utilizados na demarcação da fronteira, especialmente cursos d’água que teriam sido identificados de forma equivocada.

Essa interpretação levou, em 1934, ao primeiro questionamento formal uruguaio sobre a soberania da área.

Desde então, o tema ficou adormecido, mas nunca foi totalmente retirado da agenda diplomática uruguaia, sendo classificado como “pendente”.

Por que o tema voltou agora, quase 100 anos depois

Especialistas em relações internacionais apontam que o fator determinante para a retomada do debate foi a materialização de um grande ativo econômico na região.

Diferente de décadas passadas, quando a área tinha uso limitado, o parque eólico transformou o território em um ponto estratégico de geração de energia.

Além disso, o cenário global de valorização de fontes renováveis, somado ao volume de investimento envolvido, elevou o peso político do local.

Para o Uruguai, permitir a consolidação de um projeto dessa escala sem contestação poderia enfraquecer definitivamente qualquer reivindicação futura.

Parque Eólico Coxilha Negra: números e impacto

O empreendimento conta com 72 aerogeradores de última geração, capazes de abastecer centenas de milhares de residências. Desde 2024, a energia produzida é injetada no Sistema Interligado Nacional (SIN), reforçando a segurança energética do país.

A usina também é apontada como vetor de desenvolvimento regional, com geração de empregos, arrecadação de impostos e fortalecimento da cadeia produtiva ligada às energias renováveis no Rio Grande do Sul.

Posição do Brasil e reação do Itamaraty

O governo brasileiro, por meio do Itamaraty, reafirmou que não reconhece qualquer disputa territorial sobre o Rincão de Artigas.

Para o Brasil, a fronteira está definitivamente estabelecida, respaldada por tratados internacionais, decisões administrativas e pela ocupação contínua da área ao longo de mais de um século.

O Ministério das Relações Exteriores informou que tratará o tema exclusivamente pelos canais diplomáticos.

Risco de crise diplomática? Especialistas avaliam

Analistas ouvidos por portais especializados avaliam que a possibilidade de uma crise diplomática aberta é baixa.

Brasil e Uruguai mantêm relações estáveis, integração econômica intensa e histórico de cooperação regional.

Ainda assim, o caso serve de alerta para futuros empreendimentos em áreas sensíveis da fronteira, especialmente em um contexto de expansão acelerada de projetos de infraestrutura e energia limpa.

Energia limpa, fronteiras antigas e desafios modernos

O episódio evidencia como projetos ligados à transição energética podem gerar efeitos colaterais inesperados.

Ao mesmo tempo em que impulsionam desenvolvimento e sustentabilidade, também podem expor fragilidades jurídicas, históricas e diplomáticas que pareciam superadas.

A pergunta que fica é se a usina eólica no RS será apenas um capítulo isolado ou o início de um novo ciclo de debates sobre fronteiras na América do Sul.

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Jornalista com formação pela UNISINOS (2010) e fundador do Litoralmania, o portal de notícias mais antigo em atividade no interior do RS. Atua desde 2002 na gestão completa do veículo, com ampla experiência em jornalismo digital, produção de conteúdo, projetos e relacionamento com o público.

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