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O impossível tempo de uma partida de futsal – Sergio Agra

O IMPOSSÍVEL TEMPO DE UMA PARTIDA DE FUTSAL  Em meio à madrugada fui despertado, não por um sonho ruim, por uma estapafúrdica constatação: A vida e o futebol tem o…

O IMPOSSÍVEL TEMPO DE UMA PARTIDA DE FUTSAL

 Em meio à madrugada fui despertado, não por um sonho ruim, por uma estapafúrdica constatação: A vida e o futebol tem o mesmo tempo “jogado”.

Capão da Canoa está sob o domínio do “Vento dos Finados”, como é conhecida a temporada de ventos mais intensos no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, que se estende do mês de agosto, atravessa a primavera, e vai se abrandar no meado de novembro. Neste lapso de tempo, acrescido aos dias de intenso frio e de chuvas — é cláusula pétrea — abdico dos “diários” e matinais 5.600m de caminhada no Calçadão da Beira-mar. Somados e subtraídos, debitados e créditados, feita a prova dos nove, para desgosto de meu irmão e de meu sobrinho, Cláudio Antônio e Theo Agra,  atléticos maratonistas, minha média é de noventa dias/ano de exercícios aeróbicos. Portando, escusável dizer que as manhãs dos sete últimos meses têm sido o meu culto ao deus grego Morfeu.

Já me encontrava recolhido, tentando conciliar o sono quando fui assaltado, reitero, pela bizarra reflexão: A vida e o futebol tem o mesmo tempo “jogado”.

Erato, a deusa grega das letras e da poesia, de imediato acionou seus mensageiros, contumazes invasores em horas das mais imprevisíveis, para que provocassem minha ida ao computador e “dissecasse” minha elucubração. No exato momento em que redijo esta frase a  ampulheta digital do PC informa: 01:26.

Então me dou conta de que nos últimos três dias desadormeci em definitivo minutos passados de meio-dia, o que significa dizer que restavam menos de doze horas para o carpe diem do domingo, da segunda e da terça-feira.

Uma pessoa passa em média dois terços de sua vida acordada, o que se pode afirmar que dos meus 77… — Deus meu! — passei acordado tão somente 50 anos!

Nos noventa minutos de uma partida de futebol, o tempo efetivo de bola rolando, considerando a bola lançada para fora do campo, o “Oscar de melhor ator” para a “dramática” encenação do goleiro “lesionado”, o protesto e a tentativa de influenciar a decisão, mesmo sabendo que a chance de reversão é pequena quando marcada a penalidade máxima contra sua equipe e a consulta ao malfadado VAR, é inferior a 50 minutos.

O raciocínio que me despertara algumas horas antes já não mais se apresenta bizarro. E o desejo ardente de que a vida fosse vivida semelhantemente ao tempo jogado no futsal, onde o relógio é travado a cada interrupção, se transforma num dilema quixotesco*.

Duvidas?

Agora são exatamente 2:09. Quem garante que irei dormir de imediato?

 * Quixotesco: alguém generosamente impulsivo, sonhador, romântico, nobre, mas um pouco desligado da realidade. Sua “loucura” é a forma que ele encontra para resolver seu dilema, transformando a realidade à sua volta.

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