O IMPOSSÍVEL TEMPO DE UMA PARTIDA DE FUTSAL
Em meio à madrugada fui despertado, não por um sonho ruim, por uma estapafúrdica constatação: A vida e o futebol tem o mesmo tempo “jogado”.
Capão da Canoa está sob o domínio do “Vento dos Finados”, como é conhecida a temporada de ventos mais intensos no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, que se estende do mês de agosto, atravessa a primavera, e vai se abrandar no meado de novembro. Neste lapso de tempo, acrescido aos dias de intenso frio e de chuvas — é cláusula pétrea — abdico dos “diários” e matinais 5.600m de caminhada no Calçadão da Beira-mar. Somados e subtraídos, debitados e créditados, feita a prova dos nove, para desgosto de meu irmão e de meu sobrinho, Cláudio Antônio e Theo Agra, atléticos maratonistas, minha média é de noventa dias/ano de exercícios aeróbicos. Portando, escusável dizer que as manhãs dos sete últimos meses têm sido o meu culto ao deus grego Morfeu.
Já me encontrava recolhido, tentando conciliar o sono quando fui assaltado, reitero, pela bizarra reflexão: A vida e o futebol tem o mesmo tempo “jogado”.
Erato, a deusa grega das letras e da poesia, de imediato acionou seus mensageiros, contumazes invasores em horas das mais imprevisíveis, para que provocassem minha ida ao computador e “dissecasse” minha elucubração. No exato momento em que redijo esta frase a ampulheta digital do PC informa: 01:26.
Então me dou conta de que nos últimos três dias desadormeci em definitivo minutos passados de meio-dia, o que significa dizer que restavam menos de doze horas para o carpe diem do domingo, da segunda e da terça-feira.
Uma pessoa passa em média dois terços de sua vida acordada, o que se pode afirmar que dos meus 77… — Deus meu! — passei acordado tão somente 50 anos!
Nos noventa minutos de uma partida de futebol, o tempo efetivo de bola rolando, considerando a bola lançada para fora do campo, o “Oscar de melhor ator” para a “dramática” encenação do goleiro “lesionado”, o protesto e a tentativa de influenciar a decisão, mesmo sabendo que a chance de reversão é pequena quando marcada a penalidade máxima contra sua equipe e a consulta ao malfadado VAR, é inferior a 50 minutos.
O raciocínio que me despertara algumas horas antes já não mais se apresenta bizarro. E o desejo ardente de que a vida fosse vivida semelhantemente ao tempo jogado no futsal, onde o relógio é travado a cada interrupção, se transforma num dilema quixotesco*.
Duvidas?
Agora são exatamente 2:09. Quem garante que irei dormir de imediato?
* Quixotesco: alguém generosamente impulsivo, sonhador, romântico, nobre, mas um pouco desligado da realidade. Sua “loucura” é a forma que ele encontra para resolver seu dilema, transformando a realidade à sua volta.



















