Com a atual longevidade sobram dias para reviver emoções prazerosas de oitenta anos ou mais. Em função da casa de meus pais, fechada em nível de abandono, voltei à rua onde nasci para reencontrar amigos de 60 anos atrás.
Reapresentamo-nos em versão velhotes, identificados à custo em nossa míope memória. Alguns já se encontravam nas redes sociais onde entrei como guri na hora do recreio para diversão. Sobreviventes da Rua Lopo Gonçalves na Cidade Baixa, de casas semi abandonadas, somos herdeiros de um espólio que para nós, fora uma Cidade, um Estado, um Brasil que era nosso.
Ao retomar primórdios de nossas vidas, encetamos nova velha/relação a partir da “glória do desporto nacional”, pela qual “até a pé nós iremos”. Revisamos Beatles e Stones, sem esquecer os nacionais como Wanderléa a quem ridicularizávamos por compará-la com Elis, Gal, Elizeth Cardoso e Ângela Maria, grandes cantantes.
No entanto, sem que nos déssemos conta, quanto lirismo havia em seu canto distraídos por suas minissaias? Assim como apuramos nossos ouvidos, posicionamos outras observações do hodierno.
Desembocados em redes sociais os velhos até desavençam em vez de gozar seus últimos acordes. Esquecemos Cícero, o filosofo que detestava a velhice por afastar a vida, enfraquecer o corpo, privar dos prazeres, aproximar do fim; esquecemos Sócrates a dizer que a velhice não assusta os prudentes; Platão consolava que a velhice conduz a paz e a libertação, mas Aristóteles aconselhava a não confiar nos velhotes. Freud dizia que a velhice afeta a identidade e o sentido de pertencimento do sujeito, certamente em dúvida sobre suas inclusões. Tudo inserido no inevitável de envelhecer.
Evito comentar postagem sobre politica partidária, futebol e religião nas redes sociais, mas repenso. Dignifico nosso povo via educação, justiça social, antirracismo, proteção aos vulneráveis, respeito às minorias, apego à Constituição, reclamos por oportunidades iguais, revisão das reformas de base indicadas por João Goulart, a exemplo do que fizeram grandes nações.
Saúdo o raciocínio de Santiago Dantas que dizia que país pobre deve negociar com nações ricas independentemente de ideologias, estas de conveniência dos países ricos. Nada mais anacrônico do que basear posição política em ideologias de qualquer natureza, quando a premência dos dias é sobreviver. Exaurem-se prazos para nações bem postarem-se politicamente na economia sustentável frente ao mundo.
Esgotemos recursos naturais para cuja exploração dependemos do estrangeiro, e, veremos o que será feito do “país que vai pra frente”, redesenhado com nova geografia. Cada cidadão tem direito a um caminho político, sem esquecer-se do dever correspondente sobre o prazo com que cada ideologia se comprometa a promover o atendimento das necessidades mínimas da maioria do povo, celeiro do mundo que morre de fome, liberal que tolhe inventividades, tolerante que mata negros, mulheres e gays à luz do dia. Só não me façam opinar sobre a temática oscilação da pressão arterial e suas razoes.
Milton Santos, Nobel da Geografia do possível, dizia que a Direita prefere o capital, a Esquerda o atendimento humano. A direita cristã da América latrina, favorecida por benesses e assalto aos cofres públicos emposta a voz e posa de sabida sobre povos mantidos na ignorância. Essa direita quer solução imediata para tudo já que a vida é breve para gozo ainda hoje de tardezinha; à esquerda manipula e quer solução imediata para tudo já que a vida é breve, etc. e tal.
A Direita silenciou sobre o Collor doentio, preso numa masmorra de 600 metros quadrados frente ao mar. M.V.Bill, um rapper, em palestras nos States e Europa, disse que faz rir ao dizer que o Brasil tem meia dúzia de tipos de prisão. Spandau foi mantida para levar preso, velho e doente, um único condenado até morrer. A Esquerda fez das suas bem conhecidas. Temos prisão para bonitos, feios e para mais feios. Os dois lados tem pressa em ver o povo armado para selvagem salve-se quem puder.
O Brasil é nosso, dizem as grandes potencias certas da facilidade de se apossarem dos valores do país de um povo pusilânime. Tudo isso desemboca nas redes sociais como se discutíssemos distraída torcida por Grêmio ou Colorado
. Com reflexos lentos, mas de visão treinada na malícia, percebemos enganadores de olhos azuis que perdem por 7X1, mas posam de “professores”, para cômoda condenação do maior goleiro que o Brasil já teve que foi Barbosa, o goleiro negro a quem se atribui o maracanaço. Meus olhos direito e esquerdo se confundem para compreender o noticiário.
Na polarização americana morreu gente; na brasileira fazemos bate boca papagaios; um sofreu atentado sem sangue, outro foi jurado de morte por um punhal em mãos trêmulas. Um deles até meados de 2025 é um cadáver ambulante visto que vencedora sua Intentona Golpista seria imolado por gente mais esperta para serem ditadores, ou pela tara dos filhos para fazerem do pai um herói, defensor quase inocente de impossíveis valores.
O outro trabalha apenas para manter a esperança de seu povo. Sobre a mesa bato com as duas mãos e ambas doem enquanto as potências proclamam: o Brasil é nosso! A dor partidária faz com que muitos desistam das redes sociais, sabedores de que tal discussão vai durar para sempre, como as brigas religiosas e de torcidas organizadas que se matam estilo guerra civil a partir do futebol.
Por elas se revela o lado sombrio do Brasil. Não promovem entretenimento, elevação e paz, sim manipulações, explorações do povo ambíguo de tão infame. O mandarim nos manda tudo e mandarão trocar a cor de nossa bandeira.
O nome do país se origina do pau-brasil que produzia uma tintura vermelha, não é mesmo? Prudente, um conviva da Rua Lopo aconselhou mantermos discussão nas amenidades de nossa prisca era provecta, longe da margem de inundação da enchente de maio/24, suficientes para nos matar de paixão, sem “grenalisar”, a política nacional.
Ao lembrar os que “já não estão entre nós” por um tarifaço do tempo, pelo abandono cometido compungimos orações por bom acolhimento nos céus. Pode parecer que nostalgiamos o que não valorizamos no passado, mas convivemos sem dar importância com um compositor erudito, com artista plástico, com professores universitários, com pessoas do cinema, com profissionais liberais qualificados, com diretor de Autarquia, e até com mulheres muito belas, mães e filhas.
Não chega a ser verdade. Reafirmamos o valor do que temos em nossa formação de calma parassimpática. Não lembro muita religiosidade no pessoal da Lopo. Mas eu via tanto os padres Severino Brum e o Urbano Allgayer assim como conhecidos pais e mães-de-santo referidos como milagreiros como a Mãe Yedda, do Areal da Baronesa.
Antes de nossa era, morou ali o Príncipe Custódio, reconhecido babarorixá. Na Lopo também morou Walnyr Goulart Jacques, Sereníssimo Grão Mestre da Potência Estadual. O catolicismo com sua base paganista nunca me explicou sobre Horus, adorado há 5 mil anos, Mithra ha 3200 anos, Krishna há 2900 anos, Dionísio há 2500, todos com história tal e igual a do Cristo, da nova e eterna aliança.
Todos nasceram de uma virgem, filhos unigênitos de Deus assim como sou sujeito da digital primeira e única, caminharam sobre as águas, (eu ainda não), foram trucidados em cruz, ressuscitaram ao terceiro dia (esperem pra ver).
Quando se pergunta, à boca pequena, sobre uns e outros antigos moradores sempre nos chocamos pelo desaparecimento de uns mais do que de outros, mas o escorrer de um ranho fungado se confunde com lágrimas sublinguais que não sabemos se é por eles ou por nós.
José Alberto Silva


















