Margarida-da-praia
A Margarida-da-praia ou Grindelia atlantica, vive hoje um dos momentos mais delicados desde que passou a ser estudada pela ciência.
Restrita às dunas costeiras do Sul do Rio Grande do Sul, a espécie endêmica do bioma Pampa teve sua situação agravada após eventos climáticos extremos, especialmente as enchentes registradas nos últimos anos.
Um levantamento realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Embrapa identificou, até o início de 2024, pouco mais de 600 indivíduos vivos da espécie.
Eles estão distribuídos em áreas específicas dos municípios de Pelotas, Rio Grande e Jaguarão, o que evidencia uma distribuição extremamente limitada e vulnerável.
🔬 Mapeamento científico acende alerta de extinção
O estudo seguiu critérios internacionais definidos pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), principal referência global na classificação do risco de extinção de espécies.
De acordo com o professor de Botânica da UFPel e pesquisador da espécie, João Iganci, o diagnóstico leva em conta diversos fatores críticos:
“A gente considera o número total de indivíduos, a área onde a espécie ocorre, a extensão dessa distribuição e, principalmente, quais ameaças estão incidindo sobre cada população.”
Com base nesses parâmetros, a Margarida-da-praia é considerada em risco elevado de extinção, já que qualquer alteração ambiental significativa pode comprometer boa parte — ou até a totalidade — da população existente.
🌱 Espécie exclusiva do Pampa e essencial para o equilíbrio das dunas
A Margarida-da-praia não é apenas rara: ela cumpre um papel ecológico fundamental no litoral Sul do Estado. A espécie integra um grupo de 85 plantas típicas do bioma Pampa, sendo 50 exclusivas desse ecossistema — todas sob algum grau de ameaça.
Nas dunas costeiras, a planta atua como uma espécie de barreira natural, ajudando a fixar a areia e reduzir os impactos do avanço da água em períodos de cheias e ressacas.
“Essas plantas ajudam a fixar as dunas e evitar o avanço da água sobre áreas urbanas durante enchentes. É um efeito semelhante ao dos banhados, que funcionam como uma esponja natural”, explica o pesquisador.
Esse papel torna a espécie ainda mais estratégica em um cenário de mudanças climáticas, com eventos extremos cada vez mais frequentes no litoral gaúcho.
🌊 Enchente histórica agravou situação da espécie
A situação da Margarida-da-praia se agravou significativamente após a enchente registrada em maio do ano passado, quando grandes volumes de água avançaram sobre a orla marítima e áreas de dunas.
Durante o período de inundação, muitas plantas ficaram submersas por tempo prolongado, o que prejudicou diretamente a fotossíntese e enfraqueceu o sistema radicular da espécie, reduzindo sua capacidade de regeneração natural.
Além disso, o recuo das águas abriu espaço para um novo e perigoso problema.
🚨 Espécies invasoras avançam sobre habitat natural
Com o ambiente fragilizado após as cheias, plantas exóticas invasoras passaram a ocupar rapidamente áreas antes dominadas pela vegetação nativa.
Segundo Iganci, essas espécies não pertencem ao ecossistema local e representam hoje uma das principais ameaças à sobrevivência da Margarida-da-praia.
“Elas apareceram em grande quantidade depois das enchentes. São plantas com comportamento invasor, que competem por espaço, luz e nutrientes, prejudicando o crescimento das espécies nativas.”
Sem controle, essas invasoras podem eliminar completamente a Margarida-da-praia de determinadas áreas em poucos anos.
🤝 Força-tarefa tenta evitar o desaparecimento da flor
Diante do risco crítico de extinção, pesquisadores e poder público iniciaram uma força-tarefa de proteção da espécie. A ação envolve universidades, instituições de pesquisa e a Prefeitura de Pelotas, especialmente equipes responsáveis pela limpeza e manejo da orla do Laranjal.
Entre as medidas adotadas estão:
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Isolamento e telamento das áreas com ocorrência da espécie
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Orientação das equipes de limpeza para evitar danos às plantas
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Monitoramento contínuo das populações remanescentes
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Estudos para futura reprodução e reintrodução controlada
A expectativa é ganhar tempo para que estratégias de conservação mais amplas possam ser implementadas.
🌍 Preservar a Margarida-da-praia é proteger o litoral
Para os pesquisadores, a preservação da Margarida-da-praia vai além da proteção de uma flor rara. Trata-se de defender o equilíbrio do litoral gaúcho, a biodiversidade do Pampa e a própria segurança ambiental das áreas urbanas próximas às dunas.
Sem ações efetivas, a planta que só existe no litoral do RS pode desaparecer silenciosamente — levando consigo parte da identidade natural do Estado.


















