Escrivinhador diletante lancei um livro sem maiores pretensões, haja visto concorrer disputa de leitores com promessas literárias de sucesso e futuro machadianos com os quais convivo. Não haveria surpresa nenhuma na indiferença paciente desses parceiros na minha esperança de incorporar o enlevo poético deles por osmose ou quem sabe furtar-lhes respingos de inspiração. Mesmo sem diferenciar poética de comiseração não há autor que não tenha receio de fazer maquinações doentias para chamar de alta percepção e escrita. Mesmo que persista em mim a ideia de anotar sentimentos algo me sugeria tratar-se meu trabalho de algo parecido com o ranho intermitente de um resfriado em idosos daqueles irremediáveis.
Entre risos descompromissados de adolescentes, visitei escolas, sindicatos de senhores pais de família, quilombos e rodas de amigos a mando do Edital dos patrocinadores da edição por onde eu deveria divulgar e distribuir meu livro gratuitamente. Foi assim entre risadas que ao se aproximarem de mim num reencontro, um menino disse que ficara com uma impressão indefinida após a leitura de meu livro num único fôlego ALMANAQUE DE FLORES, BEIJOS E MENTIRAS, para entregá-lo a outro colega por não poder deixar a obra na prateleira e sim na cabeceira. Com prazo para devolução no dia seguinte ele o leu como gibi por não exigir maiores esforços de um leitor. O inusitado foi que ele levantou-se inquieto de madrugada para vomitar. Comentou ainda que dias após esse fato, desconfiou ocorrer consigo mudanças na sua forma de ver e sentir as coisas. Pelo sim pelo não, preferiu risadas de si mesmo, mas encasquetou-lhe intuição de alguma relação. Nenhum dos que narraram estranhezas, porém, atribuiu direta responsabilidade de meu livro.
Na região metropolitana de Porto Alegre uma Direção escolar demonstrou ferrenha preocupação com estudantes, normalmente vista em pais e responsáveis. Demonstravam trabalho de orientação extraclasse, detalhadas às minúcias nessa condução de seus pupilos, a ponto de levarem-nos a visitas a museus, explicarem monumentos em praças e obras, discutirem uso e aplicação da tecnologia disponível, enfim, alertam para razões de estudarem Português e Matemática domingo de manhã porque precisarão aplicá-las na segunda feira escolar ou profissional. Por mais que alguns demonstrassem distanciamento, ainda digerindo adolescência ou apenas no reluto dessa entrega, mesmo que chorassem de raiva, até por algum orgulho, em última análise não gostariam de fazer conceito de perdulários frente aos colegas mais interessados.
O conselho escolar em seu bate boca permanente decidiu me chamar como escritor. A partir daí pelo que ouviram do meu livro e da forma usada para sua elaboração, conforme expliquei sob a regência da Curadoria feita por Camila B. Schuck. Uma professora dessa Escola, Ana Paula Gonzáles, em casa ao escrever reavaliou o que já escrevia há muitos anos sem imaginar que seus escritos praticamente prontos, uma vez lidos, poderiam ter alguma serventia. Seu título é EQUIPES FELIZES, LÍDERES EFICAZES. Por saber de sua consistência pessoal, mesmo sem ler seu trabalho, um editor já disse – sim! Ao contrário de mim, eterno garoto brincalhão que o Selo Editorial da Frente Negra Gaúcha, instruído pela Silvia Mara Abreu, uma moça que não ri, teve que explicar para a Lei Paulo Gustavo e para a Secretaria de Cultura do Estado que meu riso frouxo é disfarce para quase oitenta anos de auto superação.
De outras escolas eu soube dos poucos exemplares disponíveis passarem de mão em mão com a recomendação de jamais parar em nenhuma prateleira e sim, dormir na cabeceira dos leitores para circulação imediata com destino a flanar em outras paragens. Outra recomendação era o pedido do autor de uma leitura crítica de qualquer natureza como se o livro fosse ainda um rascunho a ser modificado e melhorado. Primeiro com timidez, depois de forma desbragada como quem recebe licença para entrar em nossa casa, alguns jovens choravam, me contavam histórias completas de suas vidas, tios, e avós, que poderiam ser incluídas nos meus contos já cheios de pontos aumentados. Eu os aconselhava a escreverem essas anotações para estudo com maior acuidade. Conforme minha insistente orientação, rindo por dentro, alguns mudavam de ideia e perguntavam se seriam compreendidos ao escreverem com a naturalidade com que falavam comigo? Se não cumprirem essa promessa feita a mim, futuramente atenderão a outras demandas da vida ou da arte.
Por essas e por outras, Deus!!! Confesso que vez por outra já me bateu uma vaidade de Miss Brasil, compreendem? Fui apenas o primeiro autor com que os jovens e alguns adultos tiveram contato tão próximo a ponto de descobrirem tratar-se de alguém de carne e osso, falhas e risos doentios que eles também experimentam em tenra idade. Ou será, já pensei, que minha escrita vai ter o condão glorioso de despertar em meus leitores alguns superpoderes? Não! Não foi meu livro nem aquele exemplar a circular de cabeceira em cabeceira que vem promovendo mudanças de rumo na vida de vários leitores, foram, antes, professores assumindo simulacro de paternidade querendo ver resultados em seus alunos, ou foi apenas e tão somente, a magia da leitura como efeito despertador de nossos adormecidos superpoderes em mentes e espíritos pré-moldados no ímpeto da juventude, nalguma revolta por essa ou aquela condição, porém com destino à evolução.
José Alberto Silva



















