O lagarto-da-areia nos Lençóis Cidreirenses enfrenta uma ameaça crescente devido à circulação de veículos off-road nas dunas, conforme aponta levantamento realizado por biólogos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Lagarto-da-areia em perigo, segundo estudo
O estudo, publicado no periódico Herpetology Notes, mostra que a ação de jipes, quadriciclos, buggies e motocicletas aumenta o risco de atropelamento de uma espécie já considerada vulnerável na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
O habitat e os riscos para a espécie
O Liolaemus occipitalis, conhecido popularmente como lagartixa-da-areia, alimenta-se de aranhas e insetos e se reproduz entre setembro e março, período que coincide com o auge do turismo de verão.
Além de predar pequenos invertebrados, a espécie é parte da cadeia alimentar de aves e serpentes que habitam as dunas.
Os machos atingem cerca de 60 milímetros de comprimento (sem considerar a cauda), enquanto as fêmeas medem aproximadamente 53 mm.
Sua coloração discreta, similar à areia, e o tamanho diminuto tornam a visualização difícil, aumentando a vulnerabilidade frente aos veículos motorizados.
Lençóis Cidreirenses: beleza natural em risco
Localizadas entre Cidreira e Balneário Pinhal, as dunas dos Lençóis Cidreirenses são um território de proteção especial que atrai moradores, turistas e veranistas.
Apesar disso, conforme a Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), não há autorização legal para circulação de veículos motorizados nessas áreas.
O Consema (Conselho Estadual do Meio Ambiente) discute atualmente a criação de normas específicas para regular o uso público e a preservação ambiental, buscando um equilíbrio entre turismo e proteção das espécies nativas.
O terreno, embora pertença ao município de Cidreira, é propriedade particular da CMPC Celulose Riograndense, que afirma adotar medidas de vigilância e sinalização.
Já a beira das lagoas é administrada pela Marinha do Brasil.
Levantamento da UFRGS evidencia atropelamentos
Coordenado pela professora Laura Verrastro, do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências da UFRGS, o estudo começou em 2022 e realiza monitoramentos mensais da população de lagartos.
Desde 1986, Verrastro estuda a espécie e alerta para os riscos crescentes:
“Esse lagarto-da-areia é restrito às dunas do litoral. Sua distribuição vai de Santa Catarina até o Uruguai e percorre todo o litoral gaúcho. Está vulnerável devido à urbanização e à modificação de seu habitat”, explica.
Em dezembro de 2022, dois exemplares foram atropelados por um buggie na Praia das Cabras e foram depositados na coleção científica da UFRGS.
O monitoramento indica que episódios assim são comuns, principalmente em finais de semana, feriados e no período de primavera e verão.
O biólogo Samuel Ferreira Gohlke, coautor do estudo, ressalta a necessidade de controle:
“Deveria haver um monitoramento mais rigoroso sobre os tipos de veículos que circulam pelas dunas para evitar atropelamentos de espécies ameaçadas.”
Impacto humano no ecossistema local
A ausência de cercas permite que qualquer pessoa acesse as dunas a pé ou de veículos.
Gohlke alerta que a intervenção humana contínua altera o ambiente natural, colocando em risco a fauna local:
“Se a espécie desaparece, é porque algo está ultrapassando os limites de ações humanas nesse ambiente. É um sinal de que precisamos agir agora.”
Jipeiros afirmam agir pela preservação
Everson Lopes, conhecido como Chuck, integrante do grupo de jipeiros Partiu Tuia, afirma que o grupo busca conscientização e preservação:
“Nosso objetivo é manter o Tuia limpo e organizado, sendo o elo de comunicação entre jipeiros e órgãos ambientais. Sempre que possível, seguimos solicitações para não trafegar em áreas sensíveis, especialmente dunas muito visitadas por turistas.”
O grupo, com 133 mil seguidores no Instagram, realiza limpezas e tenta reduzir impactos ambientais, mas ressalta que a gestão da área é complexa:
“A região é parcialmente particular, e a prefeitura não intervém. Há um conflito entre ambientalistas, economia e proprietários de terra, o que dificulta soluções imediatas.”


















