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Dois dedos de azeite – Erner Machado

Hoje fui a Capão da Canoa organizar os detalhes da viagem de minha filha- Magda-, para Porto Alegre, com a finalidade de, no dia 17 de novembro, ser operada para…
Erner Machado

Hoje fui a Capão da Canoa organizar os detalhes da viagem de minha filha- Magda-, para Porto Alegre, com a finalidade de, no dia 17 de novembro, ser operada para extirpação de seus tumores um na mama e outro na axila.

       Chegando perto da área de Transportes da Secretaria Municipal da Saúde olhei, à direita, e vi na frente de uma casa uma enorme árvore que produzia um sombra muito grande e, rapidamente, me dirigi à ela e estacionei o meu carro.

       Quando desci fui abordado por uma jovem senhora, modestamente vestida e portando, na mão, uma garrafa pequena de plástico, que me disse:

– Bom dia meu senhor! Vou lhe pedir, por favor: me consiga  dois dedos de azeite para que eu possa fazer um arroz para a minha filhinha.

– Minha Senhora, lamentavelmente, eu não carrego qualquer dinheiro em espécie comigo. Lhe  peço desculpas por  não poder ajuda-la.

-Eu sou quem lhe pede desculpas, disse-me ela, pois eu achei que o senhor morava nessa casa porque estacionou o carro na sombra.  Vou continuar minha caminhada, na esperança de que alguém possa ajudar-me. Que Deus lhe abençoe, pela forma como me tratou.

– Deus lhe abençoe, também, disse-lhe eu e apressei-me para o outro lado da rua com a cabeça baixa para que ninguém visse as minhas lágrimas.

       Limpei minhas lágrimas e entrei no setor, no qual seria atendido.

Enquanto esperava a minha vez, fiquei pensando nos milhares de mães e pais do meu município, do meu estado, do meu país  que não tem um arroz, um feijão, umas batatas, uma  massa, ou um pedacinho de carne  e que também não tem dois dedos de azeite para fazerem uma comida para seus filhos.

E, ao constatar estas verdades, percebi que é desumano que continuemos insensíveis para com a miséria e para com as dores que ela traz para milhares de seres humanos- mulheres, homens e crianças que habitam o nosso Brasil.

É impossível não lembrar de  Castro Alves quando disse, ao denunciar as dores e as misérias que assolavam os escravos miseráveis que vinham de suas terras, a força, em navios ,  para servirem aos senhores em nosso pais:

“Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!”

      Nas minhas reflexões, me foi dado constatar que, hoje, não temos ninguém que denuncie com coragem e com vos alta e forte a miséria que assola nosso povo e, muito menos quem trabalhe de maneira, honesta, competente e objetiva para criar situações concretas que possam tirar os brasileiros- homens e mulheres- das suas situações de miserabilidade e os que leve, através do trabalho honesto e honrado para uma vida digna e cidadã em que possam ter pelo menos o que colocar na mesa para si e para seus filhos e não precisem mendigar, na rua, dois dedos de azeite para transforma-lo em comida.

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