Avanço da areia em Tramandaí
O avanço da areia no Bairro Barra, em Tramandaí, já mudou completamente a paisagem — e a vida — de quem mora na região onde o Rio Tramandaí encontra o Oceano Atlântico.
A força da natureza, potencializada por mudanças climáticas e pela ocupação humana ao longo das últimas seis décadas, transformou a península em um território de risco constante.
Hoje, dunas que chegam a 8 metros de altura encostam em casas, bloqueiam vias e tornam praticamente impossível manter as residências limpas, desafiando moradores e autoridades.
Uma comunidade cercada pela areia
Por décadas, o Bairro Barra foi um refúgio de pescadores. Com o passar dos anos, ruas foram abertas, sobrados construídos e novos serviços surgiram. Mas, à medida que a ocupação avançou, a natureza respondeu.
A movimentação natural das dunas, agora intensificada por fenômenos climáticos mais frequentes e agressivos, passou a atingir residências e vias com uma velocidade inédita.
Hoje, casas vivem cercadas por montes de areia que crescem semana a semana, mudando completamente o cotidiano da comunidade.
Em alguns trechos, a paisagem lembra mais um deserto do que uma área urbana, e moradores relatam que, mesmo após limpezas diárias, a areia volta a invadir portas, janelas e pátios.
Pressão por soluções imediatas: moradores cobram ação das autoridades
A situação chegou a um ponto crítico, e os moradores passaram a exigir uma resposta mais eficaz do poder público.
A prefeitura afirma que atua dentro de suas limitações, já que máquinas pesadas não podem operar sobre as dunas, conforme determinações ambientais.
Segundo a secretária do Meio Ambiente de Tramandaí, Minuche Marchini, o município realiza apenas o que está autorizado pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam):
— A prefeitura tem feito a retirada de areia liberada e permitida pela Fepam, dentro das suas possibilidades e dos maquinários disponíveis.
Essa limitação faz com que o trabalho manual não seja suficiente para impedir que a areia avance a cada novo vento forte.
O esforço diário, apesar de constante, não acompanha a velocidade com que as dunas se deslocam.
A polêmica da contenção: proposta rejeitada reacende debate
Uma das soluções defendidas pela prefeitura é a instalação de uma nova contenção com toras de madeira de 3 metros de altura, semelhante à que já funcionou no local em 2008.
Na época, a estrutura ajudou a regenerar a vegetação das dunas, essencial para mantê-las fixas e impedir que “escorram” sobre as ruas.
No entanto, segundo Marchini, um pedido de autorização enviado em maio foi negado pela Fepam:
— A vegetação que está se formando acaba “escorrendo” junto com a duna. A contenção ajudaria a segurar esse processo.
Sem a contenção, as dunas continuam avançando, trazendo transtornos como bloqueio de vias, soterramento parcial de muros e acúmulo constante de areia na frente dos imóveis.
O que diz a Fepam: autorização existe, mas análise segue em andamento
A Fepam, em nota oficial, informou que a Prefeitura de Tramandaí possui Licença Ambiental para o manejo de dunas (nº 2697/2024).
Essa licença permite a execução do Plano de Recuperação de Área Degradada, que inclui:
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instalação de barreiras temporárias,
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controle de erosão,
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colocação de cobertura morta,
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uso de vegetação nativa fixadora de dunas.
A fundação também afirmou que está analisando o pedido de instalação das toras de madeira em um trecho da Rua Parque Náutico. Ou seja, a proposta ainda não está descartada, mas segue pendente.
Mudanças climáticas agravam cenário no litoral gaúcho
A situação vivida no Bairro Barra não é isolada: o litoral gaúcho tem sido fortemente impactado por fenômenos extremos.
Segundo Gabriela Rockett, professora da UFRGS e pesquisadora do Ceclimar, ciclones extratropicais estão mais frequentes e intensos desde 2019:
— Registramos pelo menos um ciclone por ano, às vezes dois. Essas ocorrências influenciam diretamente a dinâmica das dunas e podem causar danos, como destelhamentos.
Esses fenômenos alteram a força dos ventos e a movimentação das massas de areia, tornando problemas como o atual ainda mais difíceis de controlar.


















