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Ao Fim da Tarde – Erner Machado

📜 O Verso Reencontrado do Guaíba Nesta Sexta-feira, último dia de outubro de 2025, achei um velho texto que eu fiz há 53 anos, nos meus primeiros dias de Porto…
Erner Machado

📜 O Verso Reencontrado do Guaíba

Nesta Sexta-feira, último dia de outubro de 2025, achei um velho texto que eu fiz há 53 anos, nos meus primeiros dias de Porto Alegre, em profunda solidão, olhando as águas do Guaíba que, naquele dia, estavam extremamente turvas…

AO FIM DA TARDE

Neste fim de tarde deste dia de maio Quando o sol debruça Seus últimos raios que repousam, Tingindo de vermelho O leito viscoso do Grande agonizante

Eu mando um pobre verso, À grande família dos desesperados:

  • Dos que não têm mais forças
  • Dos que entregaram à sorte O caminhar de seus dias
  • Dos que não podem falar Mudos de voz e vontade
  • Dos que não podem amar Mesmo, ainda, sendo amados
  • Dos que não podem mais ver, Cegos de vistas e de mentes,

Dos pobres, abandonados, Nas mais rudes das misérias Dos favelados do mundo, Dos que dormem na calçada, Cobertos pela tristeza

Dos que estão encarcerados, Em prisões que não fizeram, Dos que não têm o direito, De largar seus pensamentos, Soltos, vibrando, nos ventos Ao Sabor das liberdades.

Dos que um dia foram gente E, hoje, já não o são Dos que não podem mais ter O Terno afago da mão Do que trazem no olhar, Um certo ar de humildade Que eu não consigo explicar

Dos que caíram, lutando, Por doce sonho-ilusão, Dos Que não têm mais rosto Por viverem cabisbaixos Dos que vivem esmigalhados, Por seus senhores algemados, Nas prisões das circunstâncias E só lhes resta migalhas.

Dos que ardem nas fornalhas Destes sistemas malditos. Dos que mandam ao infinito, De dor, um grito profundo, Como se toda a dor do mundo Acompanhasse este grito

Neste fim de tarde Quando o sol se põe Sobre este grande rio agonizante, Eu acabo de mandar um verso A todos os desesperados.

E acabo ficando, também, desesperado Quando o sol se põe Sobre o leito viscoso Deste grande rio agonizante…

(Porto Alegre, maio de 1972)

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