Ela me trouxe um urso de pelúcia marrom e, para minha mãe, um broche de ametista. Encabulado, pensei em lhe dizer que, eu próprio, já era um circunspecto avô e a mulher ao meu lado não era minha mãe. Complacente, preferi me calar e acomodei-lhe a bagagem na sala de estar.
Como transformamos um dos dormitórios em biblioteca e gabinete de estudos a convidei a se instalar em nosso quarto. Quanto a nós, ficaríamos acomodados, como desse, no sofá da sala. Agradeceu afirmando ser infundada nossa preocupação, e sem admitir objeção, informou que trazia consigo seu catre.
Mesmo incrédulo, apressei-me em ir à biblioteca e juntar livros, jornais, revistas e folhas de ofício, displicentemente jogados sobre o tapete. Reuni-os num único monte, ainda que desordenadamente, e os acomodei num das prateleiras da estante.
Ainda apalermado, tal bicho do mato, avesso às soluções mais práticas, quedei-me a vê-la retirar da mala de antigo couro de crocodilo, uma delicada caixa de madeira. Esta lembrava, em tamanho e forma, um kit para guardar talheres. Com a maestria das milenares magas, minha avó transformou o estojo em confortável e inusitado leito. Auxiliei-a nos arranjos das mantas e dos lençóis.
Após acomodar-se no fantástico leito, prometeu, para a manhã seguinte, me levar até a sala que fora sua na Escola Normal Pereira Coruja. Desejava mostrar às colegas professoras e alunas o moleque que aprontara na noite em que ela se despedira após cinquenta anos de magistério. Ante a lembrança, ela esboçou o mais suave dos sorrisos, como se pensasse, Esse guri faz cada uma… Não mudou em nada, desde aquela festiva noite.
O auditório da Escola Normal, apesar da chuva torrencial, encontrava-se superlotado. Quase toda a comunidade fora homenagear minha avó. Aos retardatários restou se acomodarem nos corredores. Para que todos os presentes pudessem ouvir os discursos, instalaram-se alto-falantes.
Após a solenidade, minha avó veio ao meu encontro. Agradeceu-me o buquê de flores-do-campo com que lhe presenteara e quis saber o que eu estava tramando desta feita. Apesar de meus cinco anos recém-feitos, mostrei coragem: ia ler-lhe um discurso que eu mesmo fizera. Minha avó expressou mais do que surpresa, incredulidade, Discurso? – dissera ela – mal sabes as primeiras letras! Apontei o indicador entre as sobrancelhas, E a minha inteligência, vó? Ela é um lápis azul, do tamanho de uma bolita. Ela achou graça. Sabia muito bem que eu era inventivo, próprio de um futuro ficcionista, quem sabe, de um político falastrão e contador de história, hábil nos argumentos e promessas de campanhas. Absurda para ela, no entanto, a definição de inteligência que acabara de ouvir. A antiga professora me beijou com ternura a testa. Após, dei meia-volta e disparei para o palco. Sem o saber, o microfone ainda conectado, me pus a transmitir, em meio a pachouchadas, uma fantástica carreira de potrancas em cancha reta.
Encabulado, desejei-lhe uma noite de sono reparador e me dispus a sair, não sem antes fechar a porta. A voz tímida e sussurrante, como vinda de uma menina assustada, se fez ouvir, Não consigo dormir com portas fechadas e sem que haja uma réstia de luz. Assim sei que não estou sozinha…
Comovido com a fragilidade daquela mulher me questionei: Como poderia ela, sozinha, viver naquele imenso casarão, o pé direito de seis metros, cuja fachada principal vai de uma esquina a outra, com esses fantasmas que lhe assombravam as noites?
Custei a conciliar o sono. As horas que antecederam o amanhecer foram povoadas pelos meus bruxos e duendes. As luzes primeiras do dia me encontraram desadormecido.
Sem me importar com a friagem do piso de encontro aos meus pés descalços, apressei-me em saber como estava minha avó. A porta estava levemente entreaberta, tal e qual a deixara na noite anterior. Aos poucos, sem qualquer ruído, fui abrindo-a. A biblioteca estava vazia, sobre o tapete, jaziam, displicentemente jogados, meus livros, jornais, revistas e folhas de ofício.
Silenciosa, sem alarde, ela arrumara os de seu e partira.
No mesmo silêncio e sem qualquer lamento que partira num amanhecer de setembro de 1963.



















