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Para Perfumar o teu sorriso – José Alberto Silva

Te namorei do alto de um riso sarcástico que trocava pretendentes por temer a todas elas. Apesar da pouca idade de meninas eram leoas ameaçadoras, portadoras de uma força descomunal…
José Alberto Santos da Silva
Foto: José Alberto Santos da Silva

Te namorei do alto de um riso sarcástico que trocava pretendentes por temer a todas elas. Apesar da pouca idade de meninas eram leoas ameaçadoras, portadoras de uma força descomunal cuja respiração soava qual rugidos, que aos neguinhos sem sentido soava como cheque mate. Era questão de assumir masculinidade, fugir covardemente da responsabilidade que isso implicava ou justificar-se porcamente como menino grande. Assim eram as meninas negras do meu tempo que me dividiam, ora na embriagante tonturinha sexual ora na premência com que deveriam e precisavam do meu respeito. Voz corrente nas décadas de 60” e 70”, era a advertência de meu pai a repetir que a filha dos outros não é brinquedo. Um abuso dá direito à vingança de um pai.

Para enfrentar seu olhar inquiridor eu declarei amor dizendo – eu caso! – Respiração suspensa, voz tremida, perninha tremendo, mas não era de prazer. Como meus pais, será no dia 20 de novembro. 1974. Por romper não seria condenado. Casamos com o aceno do divórcio que se avizinhava na lei 6.515, do Nelson Carneiro, em 1977, Casamos três vezes: no civil, politicamente na Umbanda, menos por religiosidade propriamente dita na respeitosa Terreira da Dona Marcela e do Seu Ambrózio, alinhados com consciência negra, e finalmente na Igreja Católica do Padre Serverino Brum, na Sagrada Família.

Filhos despencavam como frutas maduras. Nasceram com olhos bem abertos parecendo observar e analisar o mundo onde estavam. Por vezes pareciam perguntar se foi mesmo nessa família que pediram a Deus para cair, cumprir sua missão de luz e se tornarem felizes. Nasceram com expressão de que percebiam o que estávamos fazendo com elas, embora nós mesmos não soubéssemos. Vieram ao mundo para gozarem a vida e a vida plena. Sem confessar eu descobrir ter medo de crianças!

Assim como se sucediam os anos, também as desavenças para driblar dificuldades. Intensa, chorada, gritava, repetida, passional. Ela determinada eu “bem amarrado” na feitiçaria feita sem religiosidade, mas feita, sim, pela malícia feminina negada por cada mulher. Homem nenhum admite envolvimento, mas a quantos enlouquece, para fazerem números feios em covardes e crescentes feminicídios, apesar das liberdades individuais desamarrarem compromissos que as filhas dispensam até mesmo de seus pais.

O mundo girou mais rápido e parece que não se passaram 50 anos de nossas vidas deixando em mim a impressão de terem sido mais de cem. Uma amiga pediu bolo e tive o impulso de oferecer-lhe o “bolo” de incomodação amorosa e cruz credo de resistência que foi nossa vida conjugal. Nessa noite de bodas de ferro, acomodação ou bronze ela dorme de ressonar e observo a serenidade com que curte o efeito de um feitiço perfumado que ainda me encanta. Os filhos voam sem olhar prá trás motivo da paz de seu sorriso. Que nossas esperanças confirmem a riqueza de sermos solidários com todos de nosso derredor que é o mundo para que façam sorte melhor do que a que tivemos.

José Alberto Silva.

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